Uma menina chamada Xena



Xena mexia na mochila de Gabrielle à procura de água.
- Gabrielle, ainda tem água nas garrafas?
Gabrielle arrumava as lenhas para poder acender a fogueira. Estava faminta e queria cozinhar.
- Você foi a última a beber Xena.
- É eu sei, mas não tô achando, coloquei dentro da sua bolsa.
- É verdade, está no bolso de fora, eu tirei do bolso de dentro porque podia acontecer um acidente.
- Que acidente, Gabrielle?
- Imagina, Argo está carregando a bolsa começa a galopar, a garrafa abre e já era os meus pergaminhos.
Xena pega a garrafa num bolso lateral. Era uma tarde quente, queria muito se refrescar.
- Sabe Gabrielle, hoje está um ótimo dia pra tomar um banho de rio. Tá fazendo um calorão.
Gabrielle passa a mão no rosto de Xena pra secar o suor e afastar os fios de cabelo grudados no rosto.
- Em dias assim, eu e meu irmão Lyceus adorávamos tomar banho de rio, pescar. Era tão divertido. – Xena recorda da infância com carinho – Um dia quero passar o verão em Amphipolis com você.
- Seria um prazer, Xena. A propósito, já faz um tempão que não vamos pra lá.
- Amphipolis me traz muitas lembranças, boas e ruins. Ambas me entristecem.
- Mas por que, Xena? As ruins eu entendo, mas e as boas? Por que te entristecem?
- As boas estão relacionadas com meu irmão Lyceus. Me entristecem porque sei que nunca mais vou revivê-las, me entristece lembrar que ele está morto.
- Oh Xena...
Gabrielle abraça a amiga. Sente seu corpo grudar com o de Xena por causa do suor. Argo relincha. Gabrielle vai em direção a fogueira preparar o frango.
Era um frango novo, abatido há algumas horas. Gabrielle cortava a cabeça e os pés dele. Pegou um pouco de água e pôs na panela.
-Xena, me passa as batatas?
Xena pegou um saco com batatas descascadas e deu a Gabrielle.
- Brigada. Esse ensopado vai ficar uma delícia, Xena.
Gabrielle começou a cantarolar uma música, mas parou ao se dar conta de que era a canção “Joxer the mighty”. Olhou para Xena pra ver se ela tin há percebido, ficou aliviada ao vê-la cochilando.
“Droga de musiquinha tosca que não sai da minha cabeça”
Xena, de olhos fechados, confundia sonho e memória. Lembrava de sua infância e adolescência em Amphípolis...
AMPHÍPOLIS... Xena e Lyceus eram crianças...
Era uma tarde bem quente de verão, Xena e Lyceus queriam muito ir pescar e insistiam para que Cyrene os deixasse ir. Toris estava encontado na porta da cabana de braços cruzados.
Cyrene:
- Toris pode levá-los pra pescar? Sozinhos vocês não vão!
Lyceus:
-Mas mãe...
Cyrene:
- Se ele quiser levar vocês, vocês podem. Eu não posso levar vocês, tenho coisas pra fazer...
Xena pede a Toris. Toris era mais velho, parecia mal humorado e não queria levá-los para pescar.
Xena:
- Tudo bem Toris, mas você vai perder a oportunidade de convidar a Alzira pra dar um passeio, há um campo muito bonito perto do açude, com muitas flores. Tem uma árvore que faz sombra... É tão bom brincar lá...
Lyceus olhando pra Xena, depois pra Toris:
- É Xena, pena que não podemos ir, né? Afinal, ninguém pode levar a gente.
- Está, bem! Eu levo vocês... – Disse Toris animado, mas um pouco tímido.
Xena virou-se pra Lyceus e sussurrou:
- É só saber usar a arma certa.
Lyceus concordou com um sorriso.
Xena e Lyceus pegaram seus caniços e saíram com Toris.
- Ei, o que vocês vão usar como isca? – disse Toris na intenção de pegá-los desprevinidos.
- Nós colocamos algumas penas coloridas no anzol, isso chama a atenção dos peixes. – respondeu Lyceus.
Xena costumava carregar uma pequena sacola pendurada, parecida com uma pochete. Dentro dela Xena carregava muita bugiganga, as penas e os anzois estavam dentro dela.
- Toris, podemos ir na frente enquanto você busca sua namorada? – perguntou Lyceus ansioso pra pescar.
- Ela não é minha namorada! E vocês vêm comigo, não posso deixá-los sozinhos.
Xena:
- Mimimimimimimimi
Toris se aproximou da casa de Alzira. Telhado de palha, varanda baixa. A Janela da frente estava encostada, Toris viu um movimento pela fenda da janela.
Xena gritou:
- Alziiiiiiiiiiiiiiraaaa!
- Xena! Pare! – Toris ficou bravo.
Alzira apareceu na janela e sorriu ao ver Toris. Disse um “Oi” e correu para fora.
- Olá, Toris?
- Oi, Al. – Respondeu Toris com timidez.
Xena e Lyceus queriam dar o fora dali logo, mas os pombinhos ficavam só se olhando, felizes por estarem se vendo.
- Alzira, meu irmão gostaria de te convidar pra ir pescar... – disse Lyceus ansioso para sair.
- Não é bem assim. Eu vim te chamar para dar um passeio com meus irmãos.
- E esses caniços? – questionou Alzira
- Nós vamos pescar e vocês podem namorar à vontade, prestaremos mais atenção nos peixes – respondeu Xena.
- Ah sim, claro. Vamos. – Alzira fechou a porta da frente. Espiou a janela e a empurrou para fechar. – Eu já estava querendo sair desde cedo, não poderia haver hora melhor para sairmos.
Após alguns minutos de caminhada, eles seguiram uma trilha passando por um campo, dúzias de dentes-de-leão espalhados pela paisagem. As crianças andavam mais passando pelo capim seco, sujando os pés com a poeira das folhas enquanto Toris e Alzira caminhavam atrás. Xena pegou uma das flores e soprou.
- Olha Lyceus! Se eu fosse uma formiga eu me penduraria e sairia voando por aí.
- Eu também Xena! – Respondeu Alzira atrás dela.
Enfim chegara a beira do lago, havia uma árvore enorme próxima a eles.
Alzira: - Que coisa, boa! A sombrinha...
Xena e Lyceus seguiram em direção ao lago. Xena pegou uma pedrinha no chão e jogou na água. A pedra quicou três vezes antes de cair afundar.
Lyceus: - Não gosto quando você faz isso, Xena.
Xena: - Por quê?
- Porque eu não sei fazer – Lyceus desanimou.
- É fácil, você só precisa jogar a pedra desse jeito...
Xena mostrou como se fazia, Lyceus catou uma pedra no chão e jogou na água. A pedra quicou duas vezes e afundou.
- Quase! – Lyceus animou.
- Lyceus, lembra como se faz para pescar né?
- Claro que lembro Xena. E se não me engano temos que fazer silêncio para não espantar os peixes. Ficar jogando pedra pode agitar a água e fazer com que eles se escondam com medo da gente.
- Eu vou pegar um peixe enorme!
Xena segurou firme no caniço, levantou bem alto e arremessou a linha com força.
- É pra chegar na toca dos peixes!
Lyceus: - Nem chega...
Lyceus fez o mesmo, arremessou a linha na água. Pensando que deveria ter cuidado para que os anzois não prendessem um no outro. Em questões de segundo, a boia da linha de Lyceus começou a mexer, sinal que algum peixe havia sido fisgado. Lyceus puxou o caniço com força. Era um peixão. O peixe caiu no chão e começou a se debater.
- Uau! – gritou Alzira surpresa com o tamanho do peixe.
Xena largou seu caniço, correu e pegou um galho caído para bater no peixe. A tentativa falhou, o galho estava podre e se partira. Xena deitou no chão e agarrou o peixe com força e começou a bater nele para que parasse de se debater, mas não adiantava. O peixe escapuliu da mão dela e foi pulando, cada vez mais próximo da margem até conseguir voltar à água. Xena conseguiu pegá-lo novamente e arremessou o peixe com força para perto de Toris, que estva sob a árvore. O peixe bateu no chão e morreu. Xena levantou do chão esfregando as mãos. Estava bastante satisfeita, suja e despenteada.
Lyceus admirado: - Xena! Você lutou com o peixe!
Xena: - É, o seu peixe. Agora quero pegar o meu!
Alzira para Toris: - Nossa, sua irmã é muito forte, parecia estar mesmo lutando com o peixe.
Toris: - Agora ela está toda suja e logo logo vai ficar fedendo a peixe. Dona Cyrene vai reclamar bastante quando chegarmos em casa.
Xena para Toris: - Que nada! Se sujar faz bem!
Lyceus: - Se a Xena ficar com cheiro de peixe, é melhor porque assim ela pode atrair mais peixe!
Toris: - Lyceus, arrume um pouco de lenha, eu faço uma fogueira e a gente come esse peixe. Alzira, hoje você comerá o meu peixe.
Xena: - O peixe do Lyceus... Mas é grande, dá pra todo mundo.
Lyceus recolheu alguns galhos caídos no chão, vendo que não era suficiente ele se afastou para procurar mais.
Toris: - Não vai sumir não, hein!
Xena também havia se afastado, contornou o lago para continuar pescando e deixar Toris e Alzira sozinhos, ela não gostava de assistir o irmão namorando, ou tentando namorar. Lembrando da adrenalina com o peixe, Xena se imaginou fazendo isso novamente. O que ela queria mesmo era conseguir pescar sem caniço, usando a força das mãos. Mergulharia e nadaria atrás deles, puxaria um pelo rabo, daria um soco e jogaria o peixe pra fora da água. Do lado de fora haveria uma frigideira sobre uma fogueira só esperando o peixe. Ele ia cair bem no meio da frigideira já morto com um “X” nos olhos e com a língua pra fora.
Xena jogou a linha na água, passou um tempo e nenhum peixe havia sido fisgado ainda. Ela não tinha muita paciência para esperar o peixe pegar a isca. Começou a sentir que Lyceus estava demorando. Ele havia saído para catar lenha já havia minutos. Xena olhou para Toris e Alzira. Eles estavam sentados encostados na árvore, Alzira escrevia alguma coisa no chão com um graveto, os dois pareciam bem-humorados e não sentiam falta de Lyceus nem de Xena.
“Esses dois ficam namorando e nem dão conta da gente, e mamãe acha que não podemos ficar sozinhos... Até parece que Toris está tomando conta de alguém” tsc tsc.
Xena fincou o caniço na lama da margem do rio, abriu a pequena bolsa, tirou um sino e amarrou na ponta do caniço. Deu um pequeno toque e foi para onde estavam Toris e Alzira.
- Toris, o Lyceus ainda não voltou! – Xena com as mãos na cintura. – Temos que encontrá-lo, eu tô com fome!
- É verdade, Xena! – Toris olha em volta e percebe que perdeu Lyceus de vista. - Olhe onde Apolo está...
- É mesmo! - Alzira olha pro céu e vê o quanto está tarde.
Xena: - Daqui a pouco o peixe está podre e o Lyceus não voltou. Onde será que ele foi buscar lenha?
Toris: - Não faço a mínima ideia, mas é bom que ele apareça logo. Odeio essa preocupação.
Alzira: - Acalme-se, Toris. Ele deve estar voltando.
Xena: - Se nenhum ser do campo o devorou...
Toris: - Pare de dizer bobagens, Xena.
Alzira: - Não seria melhor irmos atrás dele?
Xena: - Eu já estou indo !
Toris: - Você não vai a lugar nenhum, você é uma criança. Não pode ficar tomando decisões assim...
Xena: - Mas o Lyceus pode se perder por sua causa, né?
Toris: - Ele não se perdeu, ele só foi buscar lenha pra fogueira! Já está voltando.
Xena: - Ele é uma criança! E você o deixou sumir! Não deu por falta dele, sua atenção estava totalmente voltada à Alzira. Eu até gosto dela, mas ela não é mais importante que o nosso irmão.
Toris: Você é uma criança, e me deve respeito!
Xena: Não sou criança, só sou jovem demais! Eu vou procurar meu irmão!
Xena sai correndo pelo campo afora, chamando por Lyceus.
Toris: - Tenho que ir atrás dela! Xena!
Alzira: - Vou esperar aqui. O Lyceus pode aparecer do nada e não nos encontrar. Sabe como são as crianças...
Toris sai correndo atrás de Xena que já estava a uma grande distância dele.
- Xenaaaa!
- Lyceeeeus!
Xena se joga no chão cansada e começa a chorar. Toris consegue alcançá-la.
- Eu perdi meu irmão... Meu irmão sumiu...
- Vamos achá-lo, Xena. Vamos para casa, ele é esperto, não se perdeu. Quando voltar e não nos encontrar ele vai pra casa sozinho.
- Tá louco? Não podemos deixar nosso irmão perdido por aí. E você é responsável pela gente, está preparado para enfrentar a mamãe?
- Eu sei, mas com sorte Lyceus não demorará a chegar.
- Não mesmo! Vamos procurá-lo! Só volto pra casa com o Lyceus.
- Não, Xena!
- Não, Toris! Vamos procurá-lo. Só volto pra casa com o Lyceus.
O olhar firme de Xena persuadiu Toris. “Ela tem bastante atitude para uma criança, ainda por cima uma menina” pensou Toris “mas essa atitude está beirando o abuso”. Algo dentro dele dizia que tinha que deixar Xena ser abusada naquele momento. A criança estava sumida e Xena sabia o quanto isso era grave.
- Ele deve ter ido para aquela direção. Pelo menos era para lá que eu iria se quisesse mais lenha.
Lyceus apontou para uma parte do campo onde havia mais árvores. Xena foi correndo e continuou gritando o nome de Lyceus.
- Toris, ouviu isso? – perguntou Xena, dessa vez animada.
- Não ouvi nada.
- Xeeenaaa... – Era a voz de Lyceus, mas ainda estava distante. O som que a voz fazia era esquisito, parecia um eco.
- Parece que vem de uma caverna! – Exclamou Toris – mas não tem nenhuma caverna por aqui.
Xena correu mais um pouco e quase caiu num buraco. Puxou o corpo para trás e acabou caindo de costas no chão, aproximou-se do buraco ainda abaixada. Gritou ao ver Lyceus. Toris chegou e ficou feliz ao ver Lyceus. Felicidade momentânea, pois não sabia como ia tirar Lyceus de dentro do buraco.
- Toris! Xena! Me tirem daqui!
- Vamos te tirar daí, Lyceus! – disse Xena, tentando pensar numa maneira.
- Mas o quê vamos fazer? Ai, ai...
Toris estava bastante nervoso, se sentia culpado e já tinha se arrependido de ter saído com os irmãos.
Toris: - Lyceus acalme-se, vamos te tirar daí. (Só não sei como). Xena, vamos voltar para Amphípolis e pedir ajuda.
Xena: - Vamos passar em casa, avisar a mamãe que o abandonamos aqui dentro de um buraco.
Toris não sabia como agir, Xena estava certa. Não podia voltar à Amphipolis e largar Lyceus ali. Porém ele continuaria ali se ele voltasse. Também não podia pedir que Alzira fosse pedir ajuda sozinha, muito menos deixar Xena ir sozinha por mais que sua irmã fosse corajosa.
Toris: - Xena fique aqui, vou me encontrar com a Alzira e dizer que encontramos Lyceus. Posso ir à Amphípolis e buscar uma escada.
Xena: - Uma escada? Tem noção da profundidade desse buraco? Uma escada não dá Toris! Chame algumas pessoas, uma pode ficar pendurada na perna da outra até alcançar Lyceus, daí ele vem subindo. Depois o último sobe escalando o corpo dos outros.
Toris: - Que ideia louca! Mas pode dar certo, ou todo mundo cair no buraco.
Xena: - Se todo mundo cair, é só um subir nas costas do outro de novo. Tipo uma pilha, uma torre. Entende?
Toris: - Xena, às vezes você me surpreende, sabia? Tenho um certo orgulho de ser seu irmão. Você é muito esperta.
O chamado de Lyceus ecoava de dentro do poço. Estava morrendo de medo. O chão era lama, uma lama que fedia a podre. Morria de medo que afundasse e ficasse preso ali para sempre. Estava bastante escuro lá dentro e torcia para que não tivesse nenhum bicho lhe fazendo companhia.
- Lyceus, estou indo buscar ajuda! Xena e Alzira estarão fazendo companhia a você. Só tenha paciência.
“Companhia? Ele está bem longe de mim, bem fundo. E como ter paciência na situação que ele se encontra?” Xena queria dizer, mas se Lyceus ouvisse poderia ficar com mais medo e mais triste.
Xena: - Vá, e chame os mais altos!
Toris não gostava desse jeito autoritário de sua irmã, mas ela tinha razão. Razão até demais para uma criança. Correu até Alzira que já estava cansada de esperar. Alzira também estava batante preocupada. Viu Toris voltar sozinho e quis logo saber o motivo da demora, se tinha encontrado Lyceus, e por que voltara sozinho.
- Toris!
- Preciso que vá para lá e encontre Xena. Lyceus está preso num buraco, vou até Amphípolis buscar ajuda.
- Mas o quê? Toris está ficando tarde! O que aconteceu com seu irmão, preso num buraco? Isso é serio e...
- Xena está lá com ele, preciso que fique com eles até eu voltar. Eu vou correndo o mais rápido que puder!
- Não posso ficar tomando conta dos seus irmãos, Toris. E preciso voltar para casa, está tarde.
Alzira começou a lacrimejar. Algo grave aconteceria se ela não fosse para casa, Toris percebeu isso. Alzira abraçou Toris. “Xena pode ficar sozinha por um instante, Alzira precisa ir para casa” pensou Toris.
- Tudo bem, eu a levarei para casa.
- Mas e seus irmãos? Eles não podem ficar sozinhos.
- Eles vão continuar lá até eu chegar com ajuda.
- E se anoitecer?
- Eu vou rápido.
- E se anoitecer? Ela está sozinha, é perigoso!
- Então vamos rápido!
Toris segurou a mão de Alzira e puxou. Ele andava rápido na frente segurando a mão dela. Seu desejo era correr. Seu desejo era fugir. Correr para uma cidade-estado, entrar num exército e esquecer todos. Enfrentar D. Cyrene seria uma viagem ao Tártaro. Mas se fosse levar bronca e tomar porrada, seria por chegar tarde em casa, jamais deixaria que ela soubesse que ele não era responsável o bastante para levar os irmãos para uma pescaria. Queria muito não estar vivendo aquela situação. Tinha entrado numa grande fria.
- Eu já devia estar em casa, achei que nosso passeio seria mais rápido. Tô ferrada. – Alzira segurava a aflição. Seus pais não gostavam que saísse, um deles ia vê-la com Toris e só ia imaginar besteiras. Mas seria pior se seu pai a visse. – Toris vá procurar ajuda, deixe que eu me levo pra casa.
- Tem certeza?
- Tenho, para o nosso bem. Depois conversamos.
Alzira foi correndo para a direção de sua casa enquanto Toris pensou a quem poderia pedir ajuda e se dirigiu ao outro lado. Viu um conhecido passar por ele graças aos Destinos e logo pediu ajuda.
- Dalto!
- Olá, Toris meu camarada!
- Preciso de sua ajuda! Meu irmão caiu num buraco próximo ao lago! Preciso tirá-lo de lá e trazê-lo e ninguém pode saber... Vou precisar da ajuda de algumas pessoas.
- Toris acalme-se um pouco. Você tem alguma ideia de como tirá-lo? O buraco é muito fundo, podemos levar uma escada ou uma corda.
- O buraco é bem fundo, uma escada não daria e não haveria uma corda tão comprida o suficiente para puxá-lo.
- Podemos arrumar muitas cordas e emendar até que fique grande o bastante, o que acha?
- É uma boa ideia... Eu estava pensando em fazer uma espécie de escada humana, mas parece mais complicado. Vamos tentar arrumar o maior número de cordas então!
- Escada humana? Jogar todo mundo no buraco e fazer uma torre com pessoas e um escalar o outro pra sair?
- É mais ou menos... Por quê?
- Se for assim, vamos chamar os mais altos. – Dalto respondeu com um sorriso.
- Xena! – O grito de Lyceus ecoou até a boca do buraco. – Está aí?
- Estou! Alzira e Toris ainda não voltaram, devem ter ido buscar ajuda! Ou estão aproveitando que estamos aqui, longe deles.
- Eu tô com medo! Mas não vou chorar, homem não chora!
- Eles vão vir Lyceus, como um exército num resgate. Não precisa ficar com medo...
Lyceus sentia a lama em seus pés, mas não parecia ser só lama mais. Sentiu a temperatura aumentar um pouco e era como se a lama desmanchasse sob seus pés. Isso o deixou assustado. Imaginava que a lama pudesse dissolver seus pés. O cheiro era insuportável, se saísse dali teria que enfrentar um banho daqueles.
- Xena! Estou afundando! - Seus pés estavam afundados.
- Não Lyceus! – Xena gritou para o buraco e o buraco gritou de volta.
Lyceus não estava afundando, era água que minava do solo e tinha coberto seus pés até o calcanhar.
- Lyceus! Eu vou jogar um pedaço de galho para você. Você vai ter que fincar o galho na parede desse poço com toda a sua força. E se pendurar nele.
- E se o galho quebrar Xena?
- Eu jogo outro!
Xena jogou o galho com cuidado, caiu lá dentro com bastante velocidade. Lyceus conseguiu desviar. O pedaço de árvore caiu em pé e prendeu no fundo do buraco.
- Peguei Xena. Tá preso no chão e vou puxá-lo!
Estava bastante escuro no fundo, já estava anoitecendo. Xena viu com dificuldade os movimentos de Lyceus, mas conseguiu notar a facilidade que tiveram em desviar do galho.
- Lyceus você não está afundando! Se você estivesse seus pés estariam presos.
- Xena, a água tá na minha canela! É areia movediça!
Lyceus puxou o galho, sentiu que a água jorrou do eventual furo que o galho fez no chão. Segurou firme o galho com as duas mãos como se fosse uma lança e levantou acima de sua cabeça. Enterrou com toda sua força na terra úmida que formava a parede do poço. O galho soltou da parede enquanto Lyceus apoiava o peito sobre ele enquanto subia. Bateu o tórax no galho quando caiu de cara na lama.
- Aaaaaiiii!
Deitada e debruçada ao chão próxima à boca do poço e arriscando-se a cair, Xena já não conseguia ver seu irmão. Olhou para o céu e viu que a lua e as estrelas já surgiam. “Toris se foi e nos abandonou, não vai vim salvar ninguém”. Uma pedra rolou da mão de Xena, ela levou um susto. O barro escorregou para dentro do poço e Xena foi junto. Mergulhando de cabeça, Xena esticou os braços e as pernas tentando se prender nas paredes para evitar uma queda direta, “será que consigo escalar movimentando minhas palmas e meus pés?”. O diâmetro do poço superava o tamanho de seu corpo com os braços esticados e ela caiu direto na água afundando a cabeça na lama. Xena sentiu o gosto daquela terra podre, levantou-se rápido e cuspiu.
- Er... Oi Lyceus.
Lyceus abraçou Xena, a água estava na altura de seu joelho e eles podiam sentir pequenas minas fazendo cócegas nas solas de seus pés.
- A água está brotando, Lyceus.
- Se eles demorarem a gente vai afundar e morrer, Xena! – Lyceus começou a chorar.
- Não chore meu irmão, prometo que tudo vai dar certo... – A pequena Xena derramou uma lágrima.
- Eles não vão chegar, a água vai subir até nos cobrir e nos afogar. – Lyceus encostou no corpo da irmã para derramar lágrimas sem que ela visse. Ela sabia que aquele gesto era um sinal de choro contudo manteve-se apenas abraçada e calada.
Cyrene andava pelos cômodos. O jantar estava pronto e ninguém havia chegado ainda. “Eu vou matar aquelas crianças!”, “Provavelmente já voltaram e estão por aí”, “Zeus, será que aconteceu alguma coisa?” “Athena, cuide das minhas crianças, eu sei que elas estão seguras, mas não tê-las aqui me deixa possuída por Fúrias”, “Será mesmo que elas estão seguras? Só queria que chegassem logo”. Foi até a varanda, olhava esperando que aparecessem, e nada. Havia uma vizinha anciã que passava o dia na janela observando tudo que acontecia, podia arriscar descobrir alguma coisa. Era uma moradora muito antiga em Amphípolis, era tão velha que diziam que a linha de sua vida havia se perdido embolada com a dos outros. As Parcas tinham passado 100 verões procurando para cortar, por fim desistiram. Sua linha já devia estar puída e prestes a arrebentar sozinha. Cyrene se aproximou de seu casebre. Preparou-se para chamar, mas não foi necessário. A Senhora estava bem próxima a janela e chegou ao parapeito para cumprimentar Cyrene.
- Nyx te abençoe, Cyrene.
- Oh, obrigada! Desculpe incomodar, mas por acaso a senhora não viu minhas crianças passarem por aqui?
- Ora, ora. Como não? Acabei de ver o grande Orestes.
- Quer dizer, Toris, o mais velho?
- Mas como pode dizer isso? Ele é tão jovem...
- Ele estava sozinho? – perguntou Cyrene ansiosa.
- Estava com mais alguns, eram todos amigos. Eles são tão jovens e são levados por Ares para o calor das batalhas.
- Amigos? Não era um casal de criança?
- Eram amigos, era mais que um casal. Cyrene querida, não eram crianças, crianças não se casam. Era dois ou três casais de rapazes. Mas eu não pude reparar se eram casados de fato.
Embora a caduquice fosse constante, Cyrene sabia que se soubesse interpretá-la poderia coletar algum fato ao seu favor. De qualquer maneira, sabia que não se tratava de Toris. Ele estava com Xena e Lyceus.
- Você viu minha filha Xena?
- Xena, não conheço nenhuma Xena.
- É a minha princesa... – disse Cyrene com carinho
- Princesa Guerreira? Seu falecido era um servo do poderoso Ares. Mais um que o Deus da Guerra... Oh mas não foi o Deus da Guerra que o levou! Lembro bem daquela noite como se fosse hoje... Oh Cyrene, oh Cyrene...
A anciã entrou numa espécie de crise, entrou e bateu as janelas. Cyrene não estava ali para perder tempo pensando naqueles assuntos. Queria que os filhos aparecessem.
Toris e alguns amigos seguiam a trilha para onde Xena estaria. Três rapazes seguravam tochas enquanto Toris carregava um rolo pesado com pedaços de corda emendados. Em breve, se sentiria aliviado daquela situação e Lyceus estaria são e salvo. “Que nada tenha acontecido nesse intervalo”. A escuridão dificultava o caminho, Toris se sentiu um pouco desorientado.
- Xenaaaa!
O coração bateu mais forte. Xena não respondeu. Podia estar perdido, ter seguido numa direção errada. Não, mesmo o escuro atrapalhando estava certo de que tinha seguido certo. Não estava tão escuro, as tochas e a Lua alumiaram o suficiente para reconhecer o local.
- Xenaaaaaa! - Dessa vez gritou mais alto.
- Xenaaaaaa! – Seus amigos ajudaram.
- Não pode ser! Não pode ser!
Toris se ajoelhou no chão daquele campo e gritou mais uma vez. “... quase caio nesse buraco!”. Toris olhou para o buraco. A surpresa de ver o buraco cheio de água foi de tirar o fôlego. “Mas o quê? Como? Xena, Lyceus?” Toris começou a chorar. Os amigos chegaram mais perto, mas não sabiam o que fazer. O desespero foi geral. Toris ia se jogar no poço quando um amigo o segurou.
- Espere Toris, não faça isso!
- A Xena caiu com o Lyceus, eles estão no fundo, ainda estão vivos, vou mergulhar e resgatá-los, é fundo mais se eu encher bem os pulmões eu acho que... Não é muito fundo. Xenaaaaaa! Lyceeeeeeus!
- Eles podem estar por aí, de repente conseguiram escapar... Quem sabe não o resgataram e...
Um arbusto se mexeu, o vento soprou e levou às narinas dos rapazes o cheiro de pântano. Duas figuras cobertas de lama fedida saíram do arbusto fazendo todo mundo se apavorar. Quatro olhos, dois deles cobertos com uma franja comprida, brilhavam. Xena riu do espanto deles.
- Com medo de crianças enlameadas, é?
- Xena! Lyceus! – Toris correu pra abraçar os irmãos, mas estavam tão sujos e tão fedidos que ele não fez. – Graças aos deuses, vocês estão salvos! E me deixaram furioso, por que se esconderam? E quem salvou vocês?
- Eu tenho algumas habilidades, Toris – disse Xena.
Lyceus: - Toris, nos leve para casa. Tô com fome e sono.
Toris: - Vocês precisam de um banho! Mas vamos indo logo, Dona Cyrene ainda não sabe que vocês sumiram, e como vou explicar isso...
Lyceus: - É só dizer que caímos num poço de lama.
Dalto: - Mas conte-nos como saíram, todos compartilhamos a preocupação do Lyceus.
Lyceus: - Bem... a gente...
Xena: - Deixa eu contar. O Lyceus achou que estivesse afundando, havia uma lama lá no fundo, a mesma de pântanos. Essa lama tava tapando o rio que passa debaixo da terra. Aí, o poço virou um buraco.
- É verdade, lembro que era mesmo um poço – disse um dos outros amigos de Toris.
Xena prosseguiu:
- Conforme o Lyceus foi pisando, foi dando espaço pra água passar pela lama, e eu pude provar essa ideia quando joguei um pedaço de pau e depois que eu cai no poço. Eu pude sentir a água sendo empurrada do subsolo.
Toris, quase gritando: - O quê? Você caiu?
- Nós chafurdamos na lama, e o poço começou a encher bem rápido. Aí a gente boiou até em cima. De repente ele parou de encher, antes de chegar na boca, mas já dava pra segurar no mato e subir. Depois eu puxei o Lyceus.
Continuaram no caminho para casa, sem conversar muito. Saber que Xena e Lyceus, apesar de quase terem morrido, estarem sãos e salvos confortava Toris. Agora era só chegar em casa e enfrentar Cyrene...

Am>RiM



Comentários
2 Comentários

2 comentários:

  1. Muito boa a história, Amorim!
    Me amarrei!!
    Parabéns!
    Aguardando por mais aventuras...
    :)

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