FanFic - I'll Never Leave You - Capítulo XII



por Caroline Pessoa





Capitulo XI






                       As amazonas caminharam durante cinco dias. Conseguiram uma carona em um navio de mercadores que compadeceram-se da enferma que traziam. Eles alojaram os cavalos, ajudaram-nas com algumas ervas e comida. 
                       Gabrielle dormia. Dormiu o caminho todo. Xena estava sempre ao seu lado colocando panos umidecidos em sua testa e conversando com ela sobre detalhes de suas vidas. Bloqueou sua mente dos últimos acontecimentos. De Ares seus jogos e mentiras. César. Roma. 
                       Ao chegarem ao vilarejo, as amazonas receberam com glória a rainha e as sobreviventes da missão quase suicida. Hélade ordenou que as amazonas levassem para o navio dos mercadores um pequeno baú repleto com um pouco de uma considerável reserva de ouro que elas tinham armazenado das vitórias de outras batalhas. 
                       Assim que Xena pisou em terra firme pediu que a ajudassem com Gabrielle. 
                       A primeira providência fora despir a moça e banhá-la. Ela estava imunda pelos maus tratos que recebera na cela em que esteve cativa. Xena lavou o corpo de Gabrielle com água morna e essências de ervas medicinais. À medida que Xena limpava-a, descobria escoriações e manchas roxas espalhadas pelo corpo dela. No local da costela que havia sido fraturada, uma longa mancha roxa com bordas amareladas se estendia. 
                      Gabrielle ainda estava desacordada do profundo cansaço, da fraqueza da fome e das lesões corporais que sofrera. Respirava devagar. Não sentia a água molhando-a, nem a movimentação ao seu redor. Era tudo escuro e frio, o gosto de sangue desaparecera, sobrando apenas o nada. Não havia uma consciência, uma lembrança ou alguma luz. 
                      Talvez a morte fosse aquilo, o esquecimento de si mesma, de sua vida, de tudo o que acreditava e das pessoas que amava – para não sofrer com a dor da partida. 
                      Ela não era ninguém além de uma vaga impressão. Não havia um corpo, nenhuma sensação, nada. Apenas o escuro e um nome que uma voz muito fraca balbuciava – Xena. Xena. Xena. - Como um conta-gotas. 
                      O mar escuro do inconsciente ainda conseguira guardar aquilo. O mergulho profundo de Gabrielle deveria ter apagado tudo – mas o nome sobrevivera. Estava ali. Mas ela não tinha forças para lembrar, para entender. Apenas ouvia a fraqueza dele sendo repetido. 
                      - Xena. Xena. Xena. 
                      Daqui a pouco seja lá o que for aquilo, também desaparecia para sempre, assim como ela. 
                      Xena vestira Gabrielle com roupas que as amazonas doaram. A febre baixara, mas a moça loira continuava sem acordar. Xena usara todas as suas técnicas de medicina para curar Gabrielle, as curandeiras da tribo ajudaram com unguentos, essências e palavras mágicas para espantar os maus espíritos. Só restava agora esperar. Era tudo o que tinha que fazer. 
                      - Xena você também precisa de cuidados – insistiu Hélade. 
                      - Eu vou sobreviver – disse firme. – Não posso sair do lado dela. 
                      - Ao menos use um pouco das ervas em seus ferimentos, você está muito machucada... 
                      Xena sorriu torto e agradeceu. Despiu-se e limpou o sangue do corpo, da terra e das más sensações. Cuidou das escoriações do rosto, braços, coxas e pernas. O resto dos machucados curariam-se com o tempo. Vestiu apenas a roupa de couro sem as armaduras, as armas estavam inertes, ainda sujas de sangue. Ela viu as frutas, a água e o pão que Hélade mandou trazer para alimentar Gabrielle quando acordasse e a Xena também. 
                     Xena pegou a água e sorveu-a em grandes goles, nem se dera conta do quanto estava sedenta e faminta. Respirou sentindo alívio, sua garganta estava ressecada. Pegou um pedaço do pão e sentou-se para comê-lo devagar. Olhava para Gabrielle hipnotizada, sem acreditar que tudo aquilo acontecera. 
                     O sonho, César, Ares... A guerra... 
                     Suspirou sentindo as dores do combate mais acentuadas em cada canto de seu corpo. Inclinou-se para deitar e caiu em um sono profundo, com imagens desconexas. Tudo o que se lembrava eram olhos azuis de paz que a fitavam procurando-a. Ela vira figuras sombrias, um homem com semblante de uma besta assassina e um encapuzado. Sem nexo, sem direção. Ela apenas agitava os braços para amparar alguém que pedia ajuda. 
                     Quando acordou era noite. Não sabia quanto tempo tinha dormido, esfregou os olhos e viu Leah alimentando Gabrielle que estava um pouco inclinada com muita dificuldade. Xena olhou-a por muito tempo e sorriu. 
                      - Por quanto tempo dormi? – Fora suas primeiras palavras, sua voz estava rouca. 
                      - Por quase dois dias – respondeu Leah. – Gabrielle acordou antes de você, fiquei aqui o tempo todo cuidando das duas. 
                     Gabrielle apenas olhava Xena. 
                      - Eu vou deixa-las a sós – ela retirou-se. – Ah, Xena, tem água no pote, você deve estar com sede. – Saiu. 
                     Xena levantou-se e pegou a água, sorvendo-a em grandes goles novamente. Lavou o rosto e o enxugou. Em seguida, pegou uma maçã e caminhou lentamente até Gabrielle. 
                      - Você está péssima – ela disse sorrindo, ao abraça-la cuidadosa e longamente. 
                     Gabrielle sentiu as lágrimas irromperem de seu peito. Chorou por alguns minutos. Xena a acompanhava em seu próprio pranto em silêncio. Ficaram um tempo que não souberam dizer abraçadas. Mesmo sentindo dor, Gabrielle não quis deitar-se. Queria ficar ali, sentindo o cheiro de Xena para sentir que ela estava viva, ao seu lado. A dor a lembrava de que também estava viva. 
                      Elas se soltaram do abraço e se olharam. Afagaram o rosto uma da outra. 
                      - Você quer um pedaço? – Xena disse. 
                      - Não – Gabrielle sorriu – eu só queria saber se você está bem e... – sua voz quebrou-se, os olhos marejando-se novamente. As lágrimas sufocaram as palavras, Xena segurou sua mão e afaga-lhe o rosto para tentar amenizar. 
                      - Me desculpe eu – tentou dizer – eu... Fui tão... – soluçou – eu fui tão fraca e eu não consegui fazer mais... – outro soluço. 
                      - Ssssh... – Xena colocou as pontas dos dedos nos lábios de Gabrielle. – Não se culpe... – olhou para o chão e depois para Gabrielle. – Eu errei em primeiro lugar por não ter confessado que havia sonhado com César e com a sua... – engoliu seco – morte. 
                      Gabrielle fez uma careta de dor ao tentar se ajeitar na cama, fitando a amiga seriamente. 
                      - Como? – Perguntou incrédula – Você sabia e não me disse nada? 
                      - Ouça Gabrielle – pigarreou – como eu poderia crer em uma visão em que o próprio inimigo estava de volta do mundo dos mortos? – Seus olhos azuis metálicos encararam a moça loira que escutava com atenção. – Eu não quis preocupa-la com um sonho idiota... 
                      - Como foi o sonho? – Perguntou Gabrielle. 
                      - Eu te via presa por um homem e César tentava mata-la... Tentei impedir – ela olhou para baixo sentindo uma pontada no peito. – Eu não conseguia... 
                      Gabrielle ficou muda por uns instantes. 
                      - O que foi que houve então? – Ela tentava entender. 
                      - Ares... – Xena lembrava-se da forma densa que emanava tanta hostilidade – Ele nos manipulou o tempo todo. De alguma forma ele estava por trás do plano de Alti para fugir do submundo trazendo César de volta. Eu sei que o real propósito dele era me trazer para o seu lado através do ódio. E qual seria a melhor forma de me obrigar a isso, senão matando você? – Xena olhou-a firmemente. – Eu estava em um beco sem saída, por que não tive tempo para desmenti-lo e se o fizesse não importaria já que você estava mesmo nas mãos daquele monstro. Precisava jogar o jogo dele até conseguir um momento de vulnerabilidade. A sua vida é infinitas vezes mais preciosa para mim. Pedi ajuda a Hélade... Os romanos queriam também escravizar as amazonas... – suspirou – Só havia pouco mais de quinhentos soldados. As amazonas venceram... E eu invadi o palácio de César em Atenas para te salvar... 
                       Xena lembrou-se da forma prateada que vira na floresta. 
                       - Gabrielle – ela disse fitando o nada – era uma viagem de pouco mais de cinco dias e nós ainda navegaríamos. Estávamos cavalgando pela floresta quando uma luz intensa e prateada parou metros a frente de nós e... – apertou os olhos – Em instantes estávamos em Roma, perto do castelo. 
                       Gabrielle escutava ainda incrédula. 
                        - Uma luz? Mas quem? – Ela repassava os deuses em sua mente, mas não conseguiu encontrar um que fosse tão bondoso para ajuda-las. 
                        - Ártemis, talvez... Ela também ajudou Hélade a chegar ao meio da arena quando lutava contra César. 
                       Gabrielle sentiu um leve tremor na mão de Xena. 
                        - Eu... Eu sinto muito, eu não queria... – as lágrimas começaram a rolar novamente em seu rosto machucado, porém manso – Eu não queria que nada disso tivesse acontecido... 
                        - Isso não é sua culpa Gabrielle. Não é culpa de ninguém... – Xena tentou tranquiliza-la abraçando-a novamente. – O que eu fui ainda interfere no meu presente, mesmo que tente mudar isso todos os dias. Eu sei que não apaga o mal que causei, as feridas que criei... O que Ares mais deseja em mim é a genialidade da minha crueldade, é usar a minha inteligência para destruir. 
                        - Você não é mais aquela pessoa – Gabrielle rebateu. – Todos os dias nós lutamos a ponto de quase perder as nossas vidas para ajudar as pessoas – ela olhou para o teto. – Não que os deuses se importem e sei que você nunca buscou o perdão deles, mas enquanto estivermos dispostas a fazer, monstros como Ares tentarão interferir. Só podemos contar com a ajuda de nossos amigos mais fiéis... Eu só posso contar com você e você... – desvencilhou-se dos braços de Xena e afagou-lhe o rosto. - Só pode contar comigo. Somos a única família que temos... 
                        Xena olhou-a tenra. Ficou em silêncio por um tempo, deixando que a verdade nas palavras de Gabrielle amenizasse um pouco da dor que sentia. Sabia que aquele caminho implicava em muitos desafios e que nunca foi fácil buscar a redenção diante de tantas vidas destruídas. Teve a impressão de que morreria tentando e não teve medo. 
                        Lembrou-se das muitas vezes que teve vontade de desistir, de voltar a ser o que era – a guerreira mais implacável e temida que o mundo já tivesse ouvido falar. Por que seria muito mais cômodo não se importar. Apenas fecharia seus olhos diante do caos. Aquele sofrimento alheio não era dela. Mas não. Não pôde sequer pensar isso novamente, por que sentia o peso que era perder alguém amado. Lembrou-se do irmão e do filho mortos. As incontáveis vezes sufocantes em que a vida de Gabrielle esteve por um fio. 
                        Com o tempo, pôde compreender o sofrimento dos camponeses que eram atacados e saqueados por senhores da guerra, depois de tanto tempo de trabalho duro. Pais, mães, irmãos, maridos, esposos, filhos e filhas - vítimas das guerras e da influência divina. 
                        Os deuses também eram tão cruéis quanto os humanos. Onde estaria o propósito de tirar vidas inocentes? Onde estaria o prazer de ver a dor do próximo? Xena não acreditava naqueles que ocupavam o Olimpo. Lutava contra todos eles, contra o egoísmo divino descarregado na humanidade decadente. Se homens e mulheres eram passíveis de imperfeições, não precisavam de deuses que errassem também. 
                        Uma vez, há muito tempo, um amigo muito sábio lhe dissera que a vida deve ser reverenciada onde quer que passe. A paciência de Gabrielle e o seu amor à vida a fez enxergar o respeito ao próximo. O caminho da luz. 
                        A injustiça do mundo lhe pesava nas costas – ela foi uma parcela daquele mal. Sua missão seria curar as feridas daqueles que lhes pedisse ajuda. 
                        - Eu sei por que estamos aqui Gabrielle – ela apertou a mão da amiga com força. Ensaiou um sorriso, mas apenas conseguiu exprimir a tristeza que sentia. 
                        - Vai ficar tudo bem – ela sussurrou, puxando-a gentilmente para um abraço. 
                        - Não deveria ser você a me consolar... 
                        - Você não pode ser uma heroína sempre – Gabrielle rebateu docemente. – E eu não posso ser frágil o tempo todo. Sou mais forte do que você pensa. 
                        - Disso eu nunca duvidei... – Xena sorriu aconchegada com cuidado nos braços da amiga. – Nem quando você esteve naquela cela imunda sendo torturada... – tremeu por dentro. 
                        Gabrielle fechou os olhos sentindo o medo que ainda estava vivo em suas lembranças das agressões sofridas. 
                        - Foi horrível Xena... – ela disse baixinho – horrível... Achei que fosse morrer... 
                        - Não sem antes lutar – Xena soltou-se dos braços dela para encará-la.– Eu também achei que você fosse morrer por duas vezes seguidas, mas graças a ação rápida das amazonas, nós conseguimos. - Ela lembrou-se da repentina aparição de Hélade no campo de batalha. 
                        - Obrigada por não desistir de mim – Gabrielle olhou-a calorosamente. 
                        Xena apenas beijou-lhe a testa e acariciou o cabelo liso de Gabrielle. 



Quinta-feira, Capítulo 13



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